Novos Tempos

Sou nascido numa cidade operária, meu pai era metalúrgico em uma multinacional.

Meu primeiro contato com a realidade político social foi meio traumática, eu tinha 12 anos e até então o ambiente familiar me protegia, mas no início da década de oitenta fui surpreendido ao ouvir meu pai dizendo que havia famílias que não ganhavam o suficiente para se manter…

Pior que isso, imagine sua casa sendo sobrevoada por helicópteros das forças armadas com as portas abertas e armas pesadas apontadas para fora, ouvir explosão de bombas, colunas de fumaça, cavalaria avançando sobre a multidão, correria, manifestantes se refugiando em igrejas, etc.

Tudo isso foi muito intenso, uma carga sensorial e afetiva muito grande, imagens, aromas, ruídos…

Tenha certeza que eu tive uma clara noção do que eu não queria para mim e para quem eu amo.

Confesso que quando cheguei às proximidades da Câmara Municipal de Limeira para participar do processo de cassação do mandato do prefeito e vi a quantidade de policiais dos diferentes tipos e grupos, cavalaria, cães, etc., tive uma sensação muito desconfortável, mas segui em frente e para minha surpresa e satisfação, notei que eles faziam um ótimo trabalho de garantir a segurança de todos, mesmo revistando e vigiando não notei nenhum excesso, foram profissionais e até cordiais com os membros da comunidade onde eles também vivem. Em certo momento ouvi de uma policial feminina um “com licença doutor” que me surpreendeu, eu não reconheci ela, mas ela me reconheceu, estávamos todos no mesmo barco. Novos tempos…

Mesmo “otoridades” nefastas querendo dar carteiradas foram devidamente contidas com habeas corpus preventivo.

Houve cordialidade e transparência por parte da direção da mesa e de vários vereadores, muito bom. Novos tempos…

Sobre o evento, posso dizer que melhor que estar presente e ver o resultado da votação é a sensação de ter participado de tudo isso.

Vi junto comigo idosos, jovens, crianças, donas de casa, assalariados, empresários, dentistas, advogados, médicos, todos os segmentos sociais representados, sem medo de se posicionar e se manifestar. Novos tempos…

Lembro há uns vinte anos, na faculdade de medicina em que era representante discente, participei da Congregação da Faculdade de Medicina de Botucatu, inclusive da reformulação do currículo do curso de medicina. Os alunos se reuniam, decidiam e reivindicavam e quando eu ia levar a reivindicação ao professor ou departamento, eu olhava para traz e a grande maioria dos representados havia sumido por medo de represália ou por achar que já havia feito sua parte e então eu ficava sozinho. Era muito mais difícil lidar com o medo e o descompromisso dos alunos do que com os professores que, pelo menos lá, eram muito cordiais e atenciosos.

Nestes últimos dias li e ouvi mais de uma vez a frase de Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” O representado tem culpa na corrupção. Esta solidão do representante é terrível. O assédio é muito grande e o indivíduo pode ser levado a tomar decisões “inadequadas”. A sociedade presente evita isso e até muda o posicionamento e o voto do representante, como ocorreu na nossa Câmara Municipal em relação à cassação.

Claro que o que digo não se aplica a quem monta uma quadrilha com o delito como objetivo.

Estivemos presentes, continuemos presentes. Novos tempos…

Já podemos visualizar a fase de ouro do convívio social. Após definir os objetivos e valores podemos fazer como as aves que voam em formação V não por acaso, mas porque a turbulência da ave da frente gera sustentação para a ave de traz, diminuindo a necessidade de esforço durante a jornada. Quando um líder cansa, pode ser substituído por outro e assim alternadamente sem prejuízo da viagem. Novos tempos…

Quando um advogado começa um discurso de defesa dizendo que todo réu tem o direito constitucional de ser defendido ao invés de dizer que está convicto da sua inocência está declarando a culpa do réu.

Aliás, fiquei impressionado, este badalado advogado, defensor de acusados de corrupção e outros desvios, basicamente baseia sua defesa em desqualificar todo mundo, o povo, os investigadores, a acusação, os magistrados, a imprensa, etc. Tenta justificar o patrimônio baseado no faturamento da empresa, esquecendo que com custos e despesas o lucro é bem menor que o faturamento.

Diante do que vi aqui, o sucesso que ele tem nos tribunais parece se basear na baixa autoestima de quem julga, após seu discurso desqualificador, tornando-se vítimas de uma Síndrome de Estocolmo, sequestrados pelo seu discurso tipo “quem nunca errou que atire a primeira pedra”, ou então, algum favorecimento obscuro, pois demonstrar inocência eu não vi. Quando ele defende a nulidade deste processo por não ser iniciado por um cidadão e sim por uma pessoa jurídica digo que primeiro se instalou a Comissão Processante e esta é que resolveu caçar o prefeito.

A Constituição Federal diz no seu art. 5º – XXI que as associações podem representar seus membros e isto se sobrepõe a qualquer decreto. Existe, por exemplo, um pedido de cassação assinado pela Associação Paulista de Medicina, cujo estatuto eu conheço e prevê isso.

A associação é o fenômeno social mais natural da raça humana, do qual deriva o restante.

Temos que iniciar a nova fase da nossa democracia, onde após garantirmos o voto livre e a ficha limpa, temos que nos associar e assim decidir dia a dia nosso destino e não a cada quatro anos.

Conflitos existem, oras, sente e converse. Reunimo-nos, decidimos e apenas comunicamos ao executivo e legislativo o que queremos e pronto.

Os conselhos municipais, por exemplo, existem para isso e são subutilizados.

Novos tempos… Vamos agir e fazer juntos. 

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